segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Acordar com um paredão de som virou uma atividade comum na região onde moro. Sábado de manhã ao som de um forró é rotineiro. Mas o que me incomoda não é o som, de forma alguma. Até anima um pouco e da um gosto de começar o dia. O que me incomoda são as reclamações. Ouvir um "se fosse música de verdade" me arde os tímpanos e queima minha sanidade. Calma lá, não estou te obrigando a ouvir nada, mas falar que música se restringe só ao que você gosta soa incoerente e imaturo. Sabe aquelas crianças que brincam que o carrinho é melhor ou que o vestido é mais bonito? Não se limitou a infância e subiu um degrauzinho.
 Estamos numa geração onde saber o nome dos integrantes do Oasis é ser superior a quem conhece a letra de uma música da Demi Lovato. Sim, gente. Estamos vivendo o apocalipse musical. Só que ao invés de estarem nos destruindo, estamos destruindo uns aos outros.
Já citei em um post que todos fazemos certas coisas, mas escondemos pra nos encaixar. Afinal, quem quer ser amigo de alguém que fala com propriedade da MC Tati Zaqui? Pera ai, eu quero. Mas veja, não é exclusivo de gosto musical não. As séries costumam ser um galho dessa árvore também, mas não é hoje que elas vão ter seu espacinho aqui.
Hoje em dia pra ser inteligente tem que ouvir todas as canções do pop rock nacional, saber nomes da mpb que ninguém conhece, gostar de uma banda Holandesa indie com caras da irlanda que falam Frances e tocam algum instrumento tipíco da Itália fabricado apenas na Nova Zelandia e que tenha clipes que ninguém entende. 
Se você pegar algum trecho de alguma música indie e comparar com um funk ou forró romântico por exemplo, vai ver que as letras são semelhantes. Se você não acredita, vou mandar um trecho de duas músicas e você tem que adivinhar qual delas é de uma banda de forró.

"Tudo que eu quero ouvi-la dizer é: "Você é meu?"
Bem, você é minha?
Você é minha amanhã?
Você é minha? Ou só é minha esta noite?
 

"Queria poder dizer
Te quero, te amo
Aonde está você?
Quando eu te chamo"

Ok, partindo do pressuposto que você não conhece nenhuma das duas, a primeira seria de uma banda indie chamada Artic Monkeys (ok!) e a segunda seria Aviões do forró. As letras se parecem e isso não torna você que escuta qualquer uma delas melhor do que quem escuta a outra.
Gostar de Jazz não te faz superior a quem dança arroxa. Saber a coreografia de Bang não te faz escroto e ouvir Jane Joplin não te faz ganhar o Grammy de melhor gosto musical.
Claro que não estou aqui defendendo "Podem objetificar o ser humano", mas sim "se ele quer dançar anaconda no asfalto quente, porque isso iria fazê-lo menos inteligente do que eu que passo o dia dentro do quarto ouvindo Tiago Iorc?"
Se você pegar letra dos Beatles, dos Backstreet boys e do One Direction, misturar tudo e ouvir, vai ser a mesma fucking coisa. Já parou pra pensar que dá pra colocar fone de ouvido tocando Ariana Grande sem precisar postar que está ouvindo Black Sabatth? Experimenta. Experimenta também dar uma chance a outros estilos musicais sem precisar provar que você conhece de cor e salteado as letras do Cazuza e do Legião Urbana. Sabe, até Tom Zé e Caetano defendem o funk, quem sou eu pra contradizer? Não estou falando que você só vai ser melhor se ouvir, só estou falando que usar gosto musical pra definir quem a pessoa é, é tão idiota quanto perguntar para um daltônico se a moça de vermelho é mais bonita do que a moça que está de rosa. Se você tiver um pingo de consciência, vai saber que só isso não basta pra saber quem é quem.
Então não venha me mostrar a pesquisa que fala que gosto musical diz quem você é porque você é muito mais do que um cover ruim de Zé Ramalho. Estilo musical não é ringue de luta e você não é a Jade torcendo pro Jack Chan contra El Toro Fuerte. Você é uma pessoa que tem um gosto e a outra pessoa tem outro. Respeite e não se sinta superior por fazer isso também, é o mínimo que você faz.


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Kathleen Barros

Kathleen Barros
Sou uma colecionadora de histórias e estórias, uma grande adição de todas as coisas que já passaram por mim, uma fita adesiva humana. Nada passa sem deixar rastro. Sou moldada pelo mundo. instagram:@queeitebarros Facebook clique na foto
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